A profissão de repórter tem no seu histórico "glamouroso" (bem entre aspas mesmo) a cobertura de grandes guerras e situações de risco. Existem organizações internacionais que até contabilizam os jornalistas mortos em guerras e algumas que promovem o treinamento de equipes jornalísticas para essas situações. Só que aqui no Brasil não é muito comum ver, cotidianamente, todas as emissoras juntas em coberturas jornalísticas dessa natureza. E, lógico, o figurino de guerra, tomou conta da estética dos profissionais nesses dias de luta entre traficantes e policiais nos morros cariocas.
Coletes de todas as formas e modelos, uns mais chamativos do que outros, pularam nas telas das nossas casas. Eu acho difícil de se acostumar, mas entendo que faz parte do equipamento de proteção dos profissionais que arriscam os próprios pescoços para aumentar a audiência das emissoras (sem falar que também dá aquela pitada de charme nessa tal "profissão perigo").
Só que, claro, não sou só eu a perceber e comentar esse figurino. A Revista Piauí publicou no site uma sátira, uma grande brincadeira em estilo de análise - supostamente assinada pela consultora de moda Glória Kalil - dos coletes e dos figurinos da imprensa brasileira nesses dias de guerrilha no Rio de Janeiro. Superficial, sem reflexões sobre noticiabilidade e funcionalidade dos trajes, o texto tira onda da vestimenta. Mesmo assim vale a pena dar uma lida, porque isso, no mínimo, está chamando atenção. Colei o texto na íntegra logo abaixo. Para ver a versão original basta clicar no link ao final do post.
Glorinha optou pelo colete justo com épaulette, numa releitura bem-humorada da violência dos anos 80. Capacete com placa solar para o iPhone: readiness is all!
COMPLEXO DO ALEMÃO – A pedido de the piauí Herald, a consultora de moda Glorinha Kalil analisou – e comparou! – as tendências atrocity-trendy que vêm dominando os uniformes jornalísticos da tevê brasileira.Colete Globo:
Bellicose Madness! A Globo aposta em colete azul deep blue, com caimento collant sobre camisa social branca. Simples e funcional. Repare na metástase de pochetes. Colete Band:
Brutal Black! Fugindo da mesmice, Band enfrenta Polegar com modelo tomara-que-caia. Mistura de texturas kevlar & velcro garantem certa virilidade. Letras em branco dão contaste à monotonia. Que venham os obuses!
Colete Record:
Christian Soldiers! Brejeirice ton-sur-ton: conjuntinho básico com colete noir sobre camisetinha de mangas curtas confere sensualidade à repórter. Pulseira jungle wilderness da Zara completa o look.
Colete imprensa:
Hostile Frenzy! Texturas orgânicas e cores da terra dão serenidade ao combate. Charme e altruísmo da faixa em X que corre pelas costas: ao invés de atirar na polícia, bandido mira o jornalista.Fonte: Revista Piauí
Recordar é viver! E se for para relembrar imagens do saudoso programa TV Pirata da Rede Globo, sucesso humorístico dos anos 1980, melhor ainda. Eles faziam uma paródia de um casal que apresentava um telejornal. Os telespectadores de hoje podem ver esse vídeo e pensar que eles estavam brincando com a imagem famosa da dupla William Bonner e Fátima Bernardes do Jornal Nacional, mas se engana quem pensa assim. A dupla só assumiu junta a bancada em 1998, uns 10 anos depois desses episódios divertidos. Será que o pessoal da TV Pirata estava prevendo o que seria a dupla de maior sucesso na televisão brasileira? Um casal com poder simbólico tão forte e tão naturalizado junto à população capaz até de confundir a ideia de dupla de apresentadores de telejornal junto à população, que pensa que a maioria dos apresentadores de telejornal fazem também parceria conjugal na vida pessoal? Bom, se eles tinham bola de cristal para isso eu não sei, mas que os figurinos e tom o humorístico me diverte até hoje, isso é bem verdade.
Hoje também é engraçado ver como os figurinos desses apresentadores humorísticos eram tão "anos 80". Tinha tanta relação com a moda da época, não é? Só que essa é apenas mais uma prova de que a moda da época realmente estava nas bancadas dos telejornais e que essa era uma forma dos humoristas caracterizarem melhor seus personagens. Os cabelos, figurinos, maquiagem e acessórios dos jornalistas não eram muito diferente do usado por suas caricaturas. Da mesma forma que, apesar de hoje não percebermos, o figurino dos apresentadores também está inserido na moda atual. E nem precisa esperar décadas para ver isso. Daqui a alguns poucos anos será possível ver o quão esteticamente datado são os figurinos dos nossos apresentadores de hoje em dia. Esse assunto será retomado em detalhes mais adiante em outro post que está no forno (sobre a estética datada dos apresentadores, que a gente acaba naturalizando no dia-a-dia e nem percebe isso). Por enquanto, que tal uma pitada do humor do Casseta e Planeta na paródia do casal mais famoso do telejornalismo brasileiro? Ah! Reparem no figurino de frio da "Ótima Bernardes", falaremos sobre isso depois também. Até o próximo post.
Estou feliz! Esta semana vou participar de um dos maiores e mais importantes eventos científicos na área de comunicação do Nordeste, a Intercom Nordeste, que será em Campina Grande, justamente no período das festas juninas. Passar um friozinho agradável, rever os amigos, ir para uma festa junina de verdade e, mais importante de tudo, participar do evento. Dessa vez estou indo para apresentar um artigo e também para ministrar a Oficina de Figurino para Telejornalismo, mais um motivo de comemoração.
O artigo é uma reflexão conceitual sobre moda, corpo, comunicação e figurino, não necessariamente nessa ordem. Intitulado Identidade Visual do Telejornalista: Uma reflexão conceitual sobre o do papel do corpo e do figurino na apresentação dos telejornais, o trabalho será apresentado na Divisão Temática Interfaces Comunicacionais, no sábado dia 12 de junho, por volta das 14h (o evento vai de 10 a 12 de junho). Quem quiser conferir o texto na íntegra depois é só acessar o site da Intercom e acessar os Anais do congresso.
Já a oficina será ministrada na sexta e no sábado à tarde, das 14h às 18h (no sábado um pouco mais tarde por causa da apresentação do artigo). Antecipo aqui algumas coisas que serão conversadas por lá.
Ementa da oficina: Corpo e comunicação. Roupa, moda e comunicação. Conceitos de figurino. Intencionalidade da roupa. Figurino para televisão e figurino para o telejornalista. Credibilidade através da vestimenta. Cortes de cabelo, pentados, maquiagem e roupas adequadas para a função de jornalista de televisão. Erros mais comuns. Tons de roupa que combinam com cada tipo de pele e também os tons de roupa indicados para cada horário do dia. A relação entre o figurino de telejornal com a moda e com o clima. Diferenças e semelhanças entre figurino para externa e para estúdio. A relação do figurino com o cenário e com o telejornal apresentado.
Conteúdo Programático:
Parte I
Corpo e comunicação
Moda e comunicação
O que é figurino
O figurino para telejornalismo (mitos/história/padronização/masculinização)
Em tempo: A Intercom Nordeste é o Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste, evento regional da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, que todos os anos realiza eventos regionais e nacionais em diferentes cidades do país. Podem participar pesquisadores e estudantes de comunicação e áreas correlatas. Os alunos de graduação participam da Intercom Júnior e do Expocom, os demais pesquisadores (mestrandos/doutorandos/professores/etc) participam das Divisões Temáticas.
A TV Verdes Mares, afiliada da Rede Globo em Fortaleza, está em ritmo de comemoração. São 40 anos de fundação da emissora. Graças à minha sempre maravilhosa rede de amigos espalhados pelo Brasil, que de vez em quando me mandam coisas ótimas para a minha pesquisa, tive acesso à essa reportagem especial exibida por eles sobre a moda dos apresentadores e repórteres de lá. Para assistir ao vídeo é só clicar na imagem abaixo.
Fiquei muito feliz por enfim ver uma emissora de TV assumindo coisas que em geral não se assumem sobre a imagem dos apresentadores e repórteres. Mas também me entristeceu perceber a perpetuação de questões que, na minha opinião, não deveriam mais ocorrer a essa altura do campeonato.
Pontos positivos:
1 – O VT começa assumindo que o que aparece no vídeo através dos apresentadores e repórteres vira moda, influencia pessoas, chama atenção. Para muitos pode parecer óbvio que isso ocorra, mas por incrível que pareça é justamente esse o questionamento que mais me fazem quando explico minha pesquisa. “E tem alguém que preste atenção no figurino dos jornalistas?” Ô se tem! Só para citar um exemplo, além da matéria da TV Verdes Mares, na minha pesquisa para a monografia da Especialização identifiquei que a totalidade, isso mesmo, 100% das apresentadoras e repórteres entrevistadas já tinham recebido algum comentário de telespectadores sobre seus figurinos.
2 – Afirmar que os jornalistas de TV seguem as tendências de cada época. Ainda tem gente que acha que jornalista de TV vive numa bolha e que o que ele veste hoje poderia ser usado da mesma forma daqui a 20 anos ou 20 anos atrás e que ninguém iria perceber que ele estava com uma roupa de um período específico no tempo.
3 – Dizer que o importante é a notícia. Com os jornalistas virando artistas, e vice versa, fica cada vez mais esquecido que o mais importante em um noticiário televiviso deveria ser o conteúdo noticioso. Por isso os figurinos não deveriam ser, teoricamente, exagerados.
4 – Mostra o excelente (e infelizmente ainda raro) exemplo da TV Verdes Mares, que tem um setor de moda e figurino com profissionais capacitados para isso (estilistas/figurinistas/consultores de moda) dentro da própria TV.
5 – Mostra a importância da adaptação do figurino e da maquiagem com a chegada da TV em alta definição, um ponto que parece ainda ser desimportante para muitos profissionais do ramo Brasil afora.
Pontos negativos:
1 – Negar que o jornalista siga tendências hoje, em contradição ao que foi dito no item positivo 2. Claro que ainda segue e vai continuar seguindo, porque o indivíduo, seja ele qual for, está inserido numa sociedade. A moda vigente naquela época é uma questão de comportamento cotidiano. Daqui há 10 ou 20 anos vai ser fácil identificar as tendências de época assistindo aos telejornais de hoje. É como olhar aquela foto sua de 10 anos atrás e se perguntar "como eu usava esse tipo de coisa e nem me dava conta disso?". Simples, era moda, todo mundo usava.
2 – Ainda hoje existem muitos telejornalistas que usam barba e nem por isso deixam de estar com boa aparência. Um dia escrevo um post sobre isso.
3 – Ainda hoje o salário dos jornalistas é pouco e em MUITAS emissoras as roupas, acessórios e maquiagem ainda saem do bolso dos profissionais.
4 – Ainda hoje, na maioria das emissoras do país, não há treinamento específico para isso e a vestimenta continua sendo algo instintivo, feito por repetição e por "achismo", com base naquilo que cada um e no máximo seus colegas de trabalho acham que deve ou não deve ser usado.
5 – Não se contesta a imposição de "padrões", mesmo que eles não tenham nada a ver com o clima ou com o perfil estético e étnico de quem os veste, mesmo que o clima não favoreça esse tipo de roupa, mesmo que os jornalistas e as empresas não possam bancar esse tipo de figurino. Se, como afirma a reportagem, o que o telejornalista veste vira moda, estaríamos então praticando uma moda racista no telejornalismo brasileiro?
6 - E ninguém fala da tal da obrigatoriedade informal de usar o cabelo liso. Ela não tem nenhuma justificativa. 7 em cada 10 mulheres brasileiras têm o cabelo crespo, cacheado ou ondulado. Não existe nenhuma limitação técnica pra isso, como muitos afirmam. E se o telejornalista segue tendências, a moda faz tempo que está cheia de cabelos cacheados, até na protagonista da novela das oito. Mas cadê isso nos nossos telejornais. Esse assunto também merece um post no futuro. Aguardem.
De qualquer forma, parabéns à TV Verdes Mares por tratar esse assunto de forma séria, como acredito que deva ser sempre. Sim, e obrigada à professora Maria Érica, do Programa de Pós-graduação em Estudos da Mídia, que lembrou de mim e me avisou desse VT e de outras coisas interessantes para minha pesquisa que rolaram lá em Fortaleza. Thanks!
Eu acho que um dos maiores problemas do telejornalismo brasileiro, em especial do paraibano (e porque não dizer de qualquer estado com poucos cursos na área), é a falta de formação profissional específica para o meio. E o figurino para telejornalismo passa diretamente por isso, mas não só ele. O telejornalismo cresceu muito, as emissoras surgem por toda parte, os oligopólis diminuem (ainda bem) e é possível até fazer uma programação "televisiva" personalizada e divulgar pela internet. Poderes públicos, Ongs e empresas já estão descobrindo essas vantagens de montar uma programação de TV com baixos custos e as "emissoras online" se multiplicam pela internet.
Pessoas comuns, através de seus blogs, também passam a fazer seus videocasts e valorizar seu próprio passe, uma espécie de marketing pessoal pós-moderno (nesses dias eu coloco o meu por aqui, está em fase de concepção). Sem falar que conhecer internamente o mecanismo de funcionamento de uma emissora de TV também pode se tornar uma grande arma em benefício do trabalho dos assessores de imprensa, que podem assim visualizar melhor a forma de direcionar suas abordagens.
Pensando nisso, o C&E, Centro de Ensino, Preparatório e Profissionalizante, em parceria com a Universidade Potiguar (UnP), está lançando o primeiro curso de Especialização em Telejornalismo da Paraíba. Eu estou lá no corpo docente, ministrando a disciplina de Figurino para Telejornalismo. A maioria dos professores vem de fora e tem grande conhecimento do mercado. É só conferir no curriculo resumido dos professores, no final desse post.
Sobre o curso
As aulas começam em algumas semanas, as matrículas estão abertas e o curso é voltado para qualquer pessoa que tenha graduação, independente da área. O curso vai preparar profissionais para exercerem diversas funções dentro de uma redação de televisão, tratar da gestão de material telejornalístico e dos estudos de audiência e destaca as novidades tecnológicas, suas influências no exercício da profissão do jornalista, em especial do Telejornalista, bem como a necessidade de atualização profissional, num mundo inserido em constantes mudanças. O curso tem o objetivo levar aos alunos conteúdos modernos e coerentes com o que há de mais atual no mercado, baseando-se em critérios de excelência mundialmente aceitos.
A Especialização em Telejornalismo está com as matrículas abertas e as aulas terão início em fevereiro de 2010, com a duração de aproximadamente 15 (quinze) meses, incluindo-se os 3 (três) meses para a elaboração da monografia. As disciplinas serão ministradas em regime de aulas presenciais e quinzenais, sábados (manhã e tarde) e domingos, pela manhã. Ao concluí-lo, o aluno terá domínio da teoria e principalmente da prática para o bom exercício do trabalho telejornalístico, seja ele nas funções de produtor, repórter, apresentador ou editor, abrangendo também a parte administrativa da redação e dos produtos telejornalísticos. As inscrições estão abertas e podem ser feitas pelo site www.centroensino.com.br ou pelo telefone (83) 3246 8199.
Jornalista com ênfase em telejornalismo, professora universitária e pesquisadora de moda. Tem Especialização em Redação Jornalística, cursa mestrado em Estudos da Mídia e pesquisa a moda do jornalista de televisão.
É colunista de moda do portal Paraíba 1 e acredita que valorizar a beleza interior é o mais importante para ter estilo.